Planeta dos Macacos: A Guerra | Crítica

Filme de Matt Reeves vai muito além da promessa de conflito do título

Ironicamente, Planeta dos Macacos é uma das franquias mais humanas da cultura pop. Sua discussão sensível sobre evolução, intelecto e dominação toca fundo nas falhas da humanidade. A ascensão dos símios e a decadência dos homens leva à reflexão sobre esses erros e a uma torcida sincera contra a própria espécie.

Em Planeta dos Macacos: A Guerra, Matt Reeves conclui o prelúdio para a história do filme de 1968 (baseado no livro do francês Pierre Boulle) com as mesmas urgências dos longas anteriores (A Origem, de 2011, e O Confronto, de 2014). O tom, porém, é diferente, em uma mistura bíblica de conflito e recomeço. É o ápice da evolução de César, mais articulado e calejado pela responsabilidade de proteger o seu bando. Os símios vivem com medo, reféns de um combate que não parece ter data para acabar.

O avanço da tecnologia de captura de performance e da computação gráfica tornam a experiência visceral. É possível ver Andy Serkis nos olhos de César e, ao mesmo tempo, esquecer completamente do elaborado processo necessário para que o personagem ganhe vida. O que se vê é de fato um chimpanzé que ama sua família, precisa guiar um povo e vencer um conflito na busca por uma vida civilizada. Serkis transcende camadas de equipamentos e entrega uma emoção genuína, com um grau de expressão e domínio do corpo impressionantes.

O peso das atuações em Planeta dos Macacos: A Guerra também está no elenco de apoio por captura de performance - o sábio orangotango Maurice (interpretado por Karin Konoval), os guerreiros Rocket e Luca (Terry Notary e Michael Adamthwaite) e o novato Bad Ape (um timing cômico preciso de Steve Zahn) - e no lado humano do conflito: a jovem Nova (Amiah Miller) e o Coronel (Woody Harrelson). A menina representa o retorno a uma condição mais primitiva e inocente (o bom selvagem), enquanto o personagem de Harrelson vai ao coração das trevas encontrar o Coronel Kurtz de Marlon Brando para mostrar a decadência do homem civilizado.

A influência de filmes como Apocalipse Now, A Ponte do Rio Kwai e Os Dez Mandamentos é explícita. Nessa amálgama de gêneros, Reeves, que assina o roteiro com Mark Bomback, conta uma história épica sem cair em maniqueísmos e vai muito além da promessa se guerra do título. O Coronel não é mero vilão na sua oposição a César, assim como o herói não é perfeito ou infalível. O encontro dos dois expõe a natureza complexa que determina a “humanidade” na busca pela sobrevivência. Relações embaladas com imponência pela trilha de Michael Giacchino, que alterna brutalidade e leveza em uma jornada de muitas camadas.

A trama emocional de A Guerra vem acompanhada de sequências de ação grandiosas. Reeves prova que sabe não só como usar todo o espaço da tela, mas posicionar sua câmera de forma a descentralizar o olhar do espectador. Mesmo quando trabalha com bandos, a ação não se torna maçante e nem perde o foco. A câmera acompanha os personagens, sem que a vida se perca em meio a tiros e explosões. O ritmo é construído alternando tocaia e conflito, drama e humor, em uma composição que nunca perde a força - as duas horas e vinte minutos do longa passam voando.

Planeta dos Macacos: A Guerra é uma experiência cinematográfica de qualidade técnica e alcance dramático. É o retorno do cinema clássico em embalagem tecnológica, feito para entreter, mas sem menosprezar seu público. A história de César não vai embora com o rolar dos créditos. 


fonte: https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/planeta-dos-macacos-a-guerra/?key=132278